Biscoitos e cosméticos dos resíduos do maracujá

Resultado de parceria público-privado, a indústria Extrair Óleos Naturais utiliza as sementes de maracujá, provenientes de resíduos de indústrias de sucos e polpas do Norte Fluminense, para extração de óleo de alta qualidade.
22 de setembro de 2014 | 08:51

Recentemente, a indústria recebeu o Prêmio CREA-RJ de Meio Ambiente 2014, em reconhecimento pelo trabalho ligado à sustentabilidade da cadeia produtiva do maracujá no Rio de Janeiro. Também aprovou mais um projeto de inovação junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) para ampliação e automatização de sua linha de produção, visando o aproveitamento de outro resíduo: o farelo derivado da prensagem da semente, resultante da extração do óleo. Esse farelo desengordurado possui alto valor nutricional, podendo ser utilizado na fabricação de pães, biscoitos, sorvetes, caldas e recheios na indústria alimentícia. Como cerca de 70% do maracujá é composto por casca e semente, estima-se que a indústria fluminense possa gerar um desperdício e um impacto ambiental de cerca de 40 mil toneladas por ano, caso esses resíduos não sejam aproveitados. 

Inaugurada em 2010, no município de Bom Jesus do Itabapoana (RJ), na divisa com o Espírito Santo, a indústria Extrair já foi agraciada com vários prêmios de renome nacional e internacional, além de ser considerada em 2013, pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) e pelo Instituto Ethos, um caso de sucesso. O desenvolvimento de coprodutos de alto valor agregado - como o óleo e o farelo de maracujá para a indústria alimentícia, cosmética e farmacêutica – pode gerar retorno financeiro maior que a comercialização do suco da fruta, com o benefício adicional da eliminação do passivo ambiental. "Já exportamos para os Estados Unidos, Inglaterra e agora vamos começar a atender uma das maiores indústrias alimentícias do Japão", conta o empresário Sandro Reis, da empresa Extrair.

A torta gerada no processo de extração do óleo é rica em fibras e proteína, e já está sendo incorporada em rações animais e na fabricação de sabonetes. Essa torta, bem como a própria semente, quando beneficiada, também pode ser utilizada no preparo de sorvetes, mousses, entre outros produtos alimentícios. É o que se propõe com o projeto de expansão da indústria, que deve ser concluído em 2015. 

O processamento do maracujá também gera outro subproduto: a casca, que é rica em fibras e pectina. Uma equipe da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) pesquisa formas de beneficiamento da casca da fruta para obtenção de uma farinha nutritiva e funcional para consumo humano.

Reduzindo passivo ambiental

O Polo de Fruticultura Irrigada das regiões do Norte e Noroeste Fluminense apresenta um grande potencial de geração de empregos e renda para pequenos e médios produtores de frutas tropicais como abacaxi, maracujá, goiaba e coco. Nessas localidades também estão instaladas nove pequenas e médias agroindústrias que realizam o processamento da polpa para a produção de sucos com descarte da casca e da semente, gerando um passivo ambiental de cerca de 40 mil toneladas por ano.  

Um projeto desenvolvido pela Embrapa Agroindústria de Alimentos, no Rio de Janeiro, em conjunto com a Pesagro-Rio, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e o Instituto Federal-Campus Bom Jesus do Itabapoana, entre outros parceiros, busca alternativas para o desenvolvimento econômico, social e ambiental da cadeia produtiva do maracujá no Estado do Rio de Janeiro, com incorporação de tecnologias para o aumento da produtividade, treinamento e capacitação de técnicos e produtores rurais, além da implementação de uma planta-piloto para reaproveitamento das sementes do maracujá: a indústria Extrair.

O projeto "Inovação Tecnológica para o Desenvolvimento Sustentável da Cadeia Produtiva do Maracujá no Arranjo Produtivo Local" (APL Maracujá), financiado com recursos da Embrapa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Faperj, e coordenado pela Embrapa Agroindústria de Alimentos, estabelece uma nova forma de atuação, em Arranjos Produtivos Locais, com visão integrada do campo-indústria no agronegócio para a sustentabilidade da cadeia produtiva do maracujá. "A estratégia é fazer inovação tecnológica, difundindo e transferindo as soluções tecnológicas ao maior número de produtores e de industriais das regiões envolvidas com a produção e processamento de maracujá, levando materiais genéticos com alto potencial produtivo, resistentes às principais pragas e doenças; além de estabelecer processos para o aproveitamento dos resíduos da indústria de suco e polpa do maracujá, na elaboração de coprodutos de alto valor agregado, acertando o compasso entre o campo, a indústria e o mercado", afirma Sergio Cenci, pesquisador da Embrapa e líder do projeto.

A fruticultura do Estado do Rio de Janeiro tem vantagens competitivas importantes como a proximidade da produção dos centros consumidores, infraestrutura adequada com logística e a presença de centros de pesquisa, além de um parque industrial com capacidade de triplicar, no mínimo, o volume de frutas a serem processadas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil produz, anualmente, mais de 776 mil toneladas de maracujá de diversas variedades, cultivadas principalmente por agricultores familiares.  "A cultura do maracujazeiro está entre as fruteiras tropicais mais plantadas no Brasil e é de grande importância social e econômica, por ser cultivada predominantemente por pequenos produtores e com boa rentabilidade econômica", afirma o pesquisador Fábio Faleiros, da Embrapa Cerrados, no Distrito Federal. O Estado do Rio de Janeiro é o segundo maior mercado consumidor do Brasil. Essa característica indica  oportunidades e um grande desafio para os agricultores fluminenses: produzir alimentos em volume e qualidade para atender a demanda. Mesmo com grande potencial produtivo para atender seu mercado consumidor da fruta in natura, o Estado do Rio de Janeiro ainda é abastecido por grandes quantidades de maracujá de outros estados do Brasil.

Desde 2007, o Projeto APL Maracujá vem desenvolvendo ações de pesquisa, transferência de tecnologia e inovação na região Norte Fluminense. Além dos esforços para recuperação da cultura do maracujá na região, um dos resultados importantes do projeto foi a criação da empresa Extrair Óleos Naturais, que tem trabalhado com o aproveitamento dos resíduos de indústrias de sucos e polpas de frutas. No último mês foi aprovada pela Faperj a fase II do projeto, com o objetivo de consolidar o Arranjo Produtivo Local do Maracujá, a partir da incorporação de novas variedades de maracujazeiro e fortalecimento das ações de extensão e de transferência de tecnologias. Atualmente, com a atuação da Embrapa e dos parceiros na região, percebe-se uma maior integração entre o campo e a indústria, entre as instituições de pesquisa e seus técnicos; além de um aumento, mesmo que lento e gradativo, da área plantada. Isto tudo vem contribuindo para a expansão da produção de maracujá no Estado do Rio de Janeiro.

O maracujá fluminense

O Estado do Rio de Janeiro, no ramo agropecuário, tem enfrentado inúmeros problemas  desde meados dos anos 1990, quando seu principal setor do agronegócio, a produção do açúcar e do álcool, por diferentes motivos, entrou em processo de decadência. Com apoio do programa Frutificar, lançado pelo governo estadual, no ano 2000, vários pequenos e médios produtores deram início ao  novo negócio de fruticultura, dentre eles o do maracujá. Em consequência, algumas indústrias instalaram–se na região para aproveitarem a oferta da matéria-prima, em especial, para a produção de suco. Em 2004, mais de 1.500 hectares de terras de maracujá abasteciam na quase totalidade as indústrias locais com matéria-prima. Em alguns municípios do norte e noroeste fluminense, o cultivo do maracujazeiro representava a principal atividade econômica.

No entanto, em 2007, a área plantada em ambas regiões do estado caiu para menos de 425 hectares, fornecendo somente uma produção de nove mil toneladas de matéria-prima, muito aquém do necessário para atender a demanda da agroindústria, confirmando um processo totalmente dissociado entre campo e indústria. Atualmente, a indústria de sucos e polpas do maracujá do Rio de Janeiro necessita de cerca de 2.100 hectares de área plantada e uma produção de 50 mil toneladas de frutas, operando com ociosidade e dependendo de matéria-prima de outros estados. A partir de 2007, uma força -tarefa envolvendo pesquisa e extensão, com mais de 40 técnicos de instituições como Embrapa, Uenf , Pesagro-Rio, Emater-Rio, Instituto Federal-Campus Bom Jesus do Itabapoana, Firjan, Superintendência de Agricultura do estado do Rio de Janeiro, programa Frutificar, Agroindústrias e Prefeituras Municipais, realizou diagnósticos que detectaram gargalos e desafios relacionados aos aspectos tecnológicos, no processo de produção e industrialização da matéria-prima e implantou melhorias no campo e na indústria visando a revitalizar a cultura do maracujazeiro na região Norte Fluminense. Atualmente, essa rede tem contribuído para o processo de consolidação do Arranjo Produtivo Local (APL) do Maracujá no Estado do Rio de Janeiro. "O maracujazeiro é uma cultura predominantemente de pequenos agricultores familiares, que demandam maior apoio técnico. É preciso continuar apoiando ações de transferência de conhecimento e tecnologias, para promover a melhoria e a expansão do processo de produção", conclui o pesquisador da Embrapa, Sergio Cenci. 

Por: Soraya Pereira

Fonte: Embrapa Agroindústria de Alimentos em 22 de setembro de 2014 08:46

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