Transportar no Brasil custa duas vezes mais que nos EUA

A falta de um sistema de transporte intermodal, interligado e adequado às distâncias a serem percorridas, faz com que os alimentos produzidos no Brasil custem mais do que nos Estados Unidos e até mesmo do que em países latino-americanos.
Ilustração Internet
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3 de dezembro de 2014 | 07:10

O agronegócio nacional perde em competitividade e o produtor investe mais do que deveria. Para se ter uma ideia, em 2013 o Brasil gastou quatro vezes mais com Logística da Soja e do Milho que os Estados Unidos e a Argentina, segundo a Interlog, empresa de transporte.

Essa conta vem crescendo a cada ano. Na ponta do lápis, de 2003 a 2013, a elevação do custo com Logística do agronegócio foi de 328,5%, de acordo com Associação Nacional dos Exportadores de cereais (Anec). Isso quer dizer que, há 11 anos, um produtor brasileiro gastava US$ 28 portonelada para fazeroproduto chegar até o porto. Já em 2013, o custo subiu para US$ 92 portonelada.

"Nos países desenvolvidos o valor era em torno de U$ 15, agora é de U$20", diz Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral.

O gasto nacional como transporte dos produtos do campo chega a ser o dobro do americano. "A conta total da Logística (transporte e armazenagem), no entanto, é 20% maior", afirma Resende.

O principal gargalo está na alta dependência do agronegócio brasileiro do transporte rodoviário. "De cada 100 toneladas que transportamos de granéis, 80 sãoseguempor caminhõesemlongas distâncias", diz Resende. "Diluímos todos os custos fixos e custos variáveis de transporte em um modal só. E isso encarece muito a chamada tonelada/quilômetro."

Nos EstadosUnidos, 61% do transporte é feito por hidrovias. No Brasil, o número cai para 7%. Em contrapartida, são necessários US$17 para se escoar uma tonelada de grãos por hidrovia, valor que sobe para US$ 65 no transporte rodoviário.

O Brasil poderia reduzirem média 20% do custo de exportação da tonelada de Soja, assim como Milho e café, se apostasse em um sistema intermodal, em que mais de uma forma de transporte é utilizada. No entanto, a falta de Infraestrutura dificulta a implementação do sistema. A avaliação é da Fundação Dom Cabral, que calcula que seria necessário um investimento de 3,5% do PIB ao ano, pela próxima década, para atingir uma situação Logística similar à norte-americana.

"Já existem obras, mas é difícil acreditar que o ritmo vá acelerar - e, hoje, é inadequado", afirma Aurélio Pavinato, diretor presidente da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de Soja e algodão do Brasil. Na estimativa dele, dez anos de investimentos fortes reduziriam o custo logístico em apenas 35%."Toda a Logística brasileira está encarecida e com baixo nível de competitividade e de eficiência", diz.

ARCO NORTE

Com o esgotamento do potencial de expansão no Sul e Sudeste, onde estão as principais áreas produtivas, as fronteiras do agronegócio foram deslocadas para regiões sem Infraestrutura, gerando prejuízos logísticos. O caminho mais eficiente de escoamento seria o do chamado Arco Norte, região que contempla os portos de São Luís, Belém, Macapá, Santarém eltacoatiara. O problema é que esses portos não possuem capacidade de exportação nem rotas de acesso. Em 2013, o excedente de 60,8 milhões de toneladas de grãos, produzidos no Centro-Norte, foram escoados pelo Sudeste, congestionando as principais Rodovias que levam ao porto de Santos, o de maior capacidade de exportação do Brasil.

"Além de percorrer um caminho maior do que deveria - um acréscimo de mais de 500 km no percurso para achar um porto de escoamento -, o tempo que a carga fica parada na estrada aumenta mais o custo do transporte", afirma Luiz Antonio Fayet, consultor de Logística da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Para o produtor de Sinop (MT), por exemplo, cujo custo logístico atual é de US$ 130, fazer o escoamento pelo norte resultaria em economia de aproximadamente US$ 60 "A situação é crítica", diz Fayet. "É preciso acelerar as obras de Infraestrutura no País."

Por: Bárbara Bretanha

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo em 3 de dezembro de 2014 07:06

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transporte, agronegócio, infraestrutura logística


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  • Coluna Do Editor

    ...e aqui estamos nós, em 2017!

    Leticia Evelyn Oliva-Cowell
    23 de janeiro de 2017 01:25
    Industria de Alimentos em 2017, nós estaremos acompanhando.