Transferência de tecnologia de hortaliças adaptadas para o clima tropical pode impulsionar produção agrícola em Moçambique

O projeto de cooperação trilateral entre Moçambique, Brasil e Estados Unidos para o incremento de produção de variedades hortícolas de clima tropical em Moçambique caminha para a sua conclusão.
29 de setembro de 2015 | 02:24

Pesquisadores e analistas da Embrapa estiveram no mês de agosto na Estação Agrária de Umbeluzi, a 30 quilômetros da capital de Moçambique, Maputo, para treinar mais de quarenta e quatro extensionistas e técnicos rurais provenientes de várias partes do país. A capacitação visou fomentar a transferência das tecnologias do Projeto de Segurança Alimentar – PSAL, desenvolvido em parceria entre a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID), o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

Durante o treinamento, Murillo Freire e Roberto Machado da Embrapa Agroindústria de Alimentos abordaram técnicas de processamento de alimentos, com foco em produtos desidratados, visando à operação da Unidade de Agroprocessamento e Pós-Colheita, recém-construída na estação agrária do IIAM em Umbeluzi. A agroindústria iniciará suas atividades até o final do ano após a instalação dos equipamentos para desidratação e embalagem de vegetais. "Começamos com uma técnica elementar de desidratação de alimentos, mas ainda há oportunidade para produção de conservas e molhos e processamento mínimo de vegetais", informa o pesquisador da área de pós-colheita da Embrapa, Murillo Freire. O treinamento ministrado buscou aprofundar as técnicas de processamento de alimentos, especialmente aquelas voltadas para produtos desidratados. "As variedades de hortaliças de clima tropical se adaptaram bem em Moçambique com as orientações repassadas pelos técnicos da Embrapa Hortaliças. Agora, o caminho é agregar valor a esses produtos na agroindústria instalada", afirma Roberto Machado, da Embrapa Agroindústria de Alimentos.

O estudo socioeconômico das cadeias produtivas de Moçambique foi liderado pelo pesquisador André Cribb, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, que orientou os técnicos do IIAM quanto aos conceitos e métodos para o estudo de cadeias de valor. "Durante os últimos dois anos, realizamos uma ampla pesquisa com mais de 600 produtores rurais das duas principais áreas produtivas no país: as zonas verdes próximas à capital Maputo e a região formada pelos distritos de Moamba e Boane. Graças a essa pesquisa, foi possível diagnosticar a situação da produção e comercialização de hortaliças na área geográfica coberta pelo projeto", destaca o pesquisador da Embrapa.

Segundo dados levantados pela equipe do Componente de Socioeconomia, composta por técnicos profissionais da Embrapa (Brasil), do IIAM (Moçambique) e da Universidade Estadual de Michigan (Estados Unidos), as principais culturas são tomate e cebola cultivadas na região de Moamba e Boane e de alface e couve nas Zonas Verdes de Maputo, capital de Moçambique. A maioria dos produtores das Zonas Verdes adquirem sementes, pesticidas e fertilizantes inorgânicos de comerciantes ambulantes informais. Já os agricultores com mais terra e maior capacidade tecnológica da região de Moamba e Boane usam mais insumos e são mais propensos a comprar estes produtos de um canal formal do que de um informal. As sementes representam o maior custo de insumos dos agricultores, comparativamente aos pesticidas e fertilizantes, apesar do baixo nível de conhecimento sobre as variedades de sementes que utilizam. A comercialização dos produtos é feita na maior parte a varejo em mercados formais e informais. Quanto à irrigação, nas Zonas Verdes 98% dos produtores regam manualmente. Em Moamba e Boane, mais de 50% usam bombas para irrigar suas plantações por gravidade. Também em Moamba e Boane, menos de 3% dos produtores usam irrigação por aspersão ou gota-a-gota.

No estudo da cadeia produtiva do tomate especificamente, as principais dificuldades apresentadas pelos produtores dessas regiões foram falta de equipamentos mecanizados, alto custo de aquisição de semente de qualidade e de alta produtividade, ataque de pragas e doenças, que resultam em perdas de produção no campo. Há também grandes perdas na pós-colheita com ausência de instalações adequadas de armazenamento. A dificuldade de acesso a crédito e forte concorrência dos alimentos provenientes da África do Sul desestimulam a produção local. "Essas são dificuldades que provavelmente afetam outras cadeias de produção de alimentos em Moçambique", analisa André Cribb.

O final do Projeto de Segurança Alimentar – PSAL, que durou quatro anos, será marcado com o lançamento de um livro com um conjunto de recomendações para o fortalecimento das cadeias hortícolas, a ser lançado em Moçambique em novembro, com a participação de integrantes dos três países envolvidos (Brasil, Estados Unidos e Moçambique). Até lá, também será definido um plano de sustentabilidade para a continuação dos experimentos e das atividades executadas para o setor hortícola, aperfeiçoando as competências e os mecanismos fundamentais para a transferência das tecnologias realizadas pela Embrapa.

Por: Aline Bastos

Fonte: Embrapa Agroindústria de Alimentos em 29 de setembro de 2015 02:20

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