Biofortificação se torna política de governo no Maranhão

“O Maranhão vai abraçar mais ainda os cultivos biofortificados. Estamos capacitando noventa novos técnicos para realizarem de modo eficaz a distribuição dessas cultivares, para espalharmos por todo o Maranhão.
23 de novembro de 2015 | 02:16

Na última semana, durante a 2ª edição da Feira da Agricultura Familiar e Agrotecnologia do Maranhão (Agritec), o Secretário de Agricultura Familiar do estado, Adelmo Soares, discursou sobre os incentivos garantidos aos pequenos produtores para estimular a produção agrícola, principalmente na Região dos Cocais, território esse composto por 17 municípios, com uma população total de cerca de 750 mil habitantes, dos quais 30% vivem em áreas rurais, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Inseridos nesse cenário, estão os cultivares biofortificados desenvolvidos pela Embrapa, que vêm sendo cada vez mais procurados pela população de agricultores familiares por possuírem maiores teores de ferro, zinco e pró-vitamina A obtidos a partir de cruzamento convencional, além de maior capacidade produtiva.

“O Maranhão vai abraçar mais ainda os cultivos biofortificados. Estamos capacitando noventa novos técnicos para realizarem de modo eficaz a distribuição dessas cultivares, para espalharmos por todo o Maranhão. Nós acreditamos muito na força dos biofortificados para combater a fome oculta e elevar a produção, desse modo melhorando a qualidade de vida da população, que necessita prontamente desse apoio.” Foram as palavras do secretário Adelmo Soares, após apresentar a cultivar BRS Aracê (feijão-caupi verde) para um auditório lotado de extensionistas.

Como parte das atividades ligadas ao reforço na agricultura familiar, o analista da Embrapa Meio-Norte, Marcos Jacob, visitou assentamentos ao redor de Caxias-MA (muitos quilombolas) para avaliar os sistemas de irrigação, assim como outras necessidades agronômicas, fertilidade de solo e tamanho de área de plantio. A expectativa é que esses agricultores também venham a plantar variedades biofortificadas, em breve.

As culturas biofortificadas farão parte das ações de programas públicos como o Procaf (Programa de Compra da Agricultura Familiar), que permite ao governo comprar 30% dos produtos da agricultura familiar para o abastecimento de presídios, hospitais, escolas e outras instituições. O PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) também será peça fundamental no acesso a esses produtos, obtendo de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), o dobro de financiamento atual. ”Esse conjunto de esforços será muito importante para atingirmos nossos objetivos com o Mais IDH, que visa, a partir de 23 projetos, elevar os indicadores sociais nos 30 municípios do estado ainda pertencentes aos 100 IDHs mais baixos do país.” Conclui o secretário.

Onias de Santana, agricultor do município de Codó-MA, participou da Agritec junto de um stand contendo suas variedades biofortificadas, onde pôde falar sobre sua experiência de produção. “Atualmente venho plantando a batata-doce, o feijão-caupi e o milho. As minhas manivas de macaxeira estão produzindo bem e eu espero para o ano poder ter material suficiente para abastecer a cidade de Codó todinha, semelhante ao que eu alcancei nas colheitas de batata-doce, as quais me permitiram abastecer o estado do Maranhão todo.”

O trabalho de biofortificação no Brasil é realizado pela Rede BioFORT, cuja líder é a pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos, Marília Nutti. Todos os esforços em ampliar a biofortificação visam o combate à fome oculta, que é o termo utilizado para designar a carência de micronutrientes no organismo de uma pessoa. Esse tipo de deficiência assola uma em cada três pessoas no mundo.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, 2013), 48% das crianças no mundo com menos de cinco anos de idade apresentam anemia (deficiência de ferro) e 30% possuem deficiência em vitamina A. No Brasil, os números também são altos, tendo 55% das crianças com menos de cinco anos de idade apresentando deficiência de ferro e 13% com deficiência em vitamina A. Essa ausência crucial de micronutrientes no organismo pode provocar uma evolução em sintomas como cegueira noturna, anemia e diarreia, levando até ao falecimento de indivíduos, principalmente crianças, frente a esse quadro de fome oculta.

Mais sobre a biofortificação

A biofortificação consiste em um processo de cruzamento de plantas da mesma espécie, gerando cultivares mais nutritivos. O processo também é conhecido como melhoramento genético convencional. No melhoramento genético convencional uma planta é cruzada com outra da mesma espécie, não ocorrendo incorporação de genes de outro organismo ao genoma da planta, sendo necessário a realização de repetidos cruzamentos até atingir o cultivar melhorado desejado. Somente na transgenia ou engenharia genética é que se incorporam genes de outro organismo no genoma da planta.

Mais sobre a Rede BioFORT

A Rede BioFORT é responsável por englobar todos os projetos de biofortificação de alimentos no Brasil, sendo atualmente coordenada pela Embrapa. Dentre suas parcerias, está a principal, feita com a instituição de pesquisa HarvestPlus, uma aliança de instituições de pesquisa que atuam na América Latina, África e Ásia com recursos financeiros da Fundação Bill e Melinda Gates, Banco Mundial e agências internacionais de desenvolvimento. A Rede BioFORT conta ainda com projetos financiados pela Embrapa, CNPq, e diversas fundações estaduais de suporte a pesquisa. A partir da utilização da técnica de melhoramento genético convencional, é selecionado e aumentado o conteúdo de micronutrientes dos seguintes cultivares: arroz, feijão, batata-doce, mandioca, milho, feijão-caupi, abóbora e trigo. Novas culturas são geradas contendo maiores teores de pró-vitamina A, ferro e zinco, fortalecendo assim o combate à deficiência de micronutrientes no organismo humano, a popular fome oculta, que dentre as doenças provocadas, estão a anemia e a cegueira noturna. A Rede BioFORT não trabalha com alimentos transgênicos.

Por: Raphael Santos

Fonte: Rede BioFORT em 23 de novembro de 2015 02:10

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